terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Bancos - a peça fora da engrenagem

conceitos.com
António Costa, Primeiro-Ministro de Portugal, questionado ontem (15/12/2015) quanto ao processo de venda do BANIF, declarou que “Independentemente de como corra o processo de venda, que desejamos que corra bem, independentemente de como corra o processo de apreciação na Comissão Europeia, que também desejamos que corra bem, há uma coisa que ficará sempre garantida, que é a integridade do dinheiro dos depositantes, que será salvaguardada em qualquer circunstância, e portanto não há nenhum motivo para os depositantes terem qualquer quebra de confiança na instituição. […] Espero que a solução que venha a existir proteja o melhor possível o dinheiro dos contribuintes, mas a garantia que eu posso dar aos contribuintes não é a mesma que posso dar aos depositantes. Os depositantes têm todas as razões para estar plenamente confiantes na integridade dos seus depósitos, independentemente dos seus montantes. Quanto ao dinheiro público investido no banco, esse dependerá muito do resultado final, e quanto a esse não posso dar a mesma garantia.”
 
Nestas inacreditáveis declarações está patente a súmula da atitude que o poder político tem tido para com o sistema financeiro e as suas crises recorrentes, particularmente no pós-2008. É espantoso quando um primeiro-ministro de um país põe à frente dos contribuintes, que o elegeram para o cargo público que desempenha, os depositantes de um banco que, apesar da participação do Estado, continua a ser privado. O mais alto representante do poder executivo reconhece assim que não serve os interesses dos votantes, mas sim os dos depositantes. Porquê? A resposta oficial é resumida na declaração de Jorge Coelho, uma das figuras mais conhecidas do Partido Socialista, que no mesmo dia afirmou que “Isto não pode ser tratado como se tratasse de uma insolvência de uma empresa qualquer, das milhares que se fazem todos os meses; não, uma instituição financeira tem de ser tratada como uma instituição quase, digamos, de Estado, pelas consequências que tem do ponto de vista, digamos, global.”, ou seja, os bancos parecem merecer um papel à parte na economia de mercado.
 
Se os responsáveis políticos continuarem subservientes aos agentes financeiros, e se as opiniões públicas continuarem adormecidas, é certo que a tendência actual irá manter-se. Os Estados continuarão a financiar os buracos nas instituições financeiras, representando um papel de rede de segurança para o sistema, assumindo uma participação cada vez mais prolongada e mais acentuada nos capitais dos bancos privados, e sobrecarregando os contribuintes com a factura desses negócios, diminuindo o nível de vida daqueles que deveria defender. Uma vez que não é sustentável, a médio ou longo prazo, os contribuintes assumirem continuamente os prejuízos dos bancos, enquanto os depositantes beneficiam dos lucros, o desfecho provável deste cenário é a suprema ironia do mundo pós-queda do comunismo: a liberalização desregulada do sistema financeiro levará à sua nacionalização e apropriação por parte do Estado, podendo produzir um sistema económico de características parecidas com o do Estado chinês.
 
No entanto, há sempre uma alternativa. Se a sociedade como um todo, privados e Estado, particulares e empresas, assumirem que os Bancos são empresas como as outras, com risco para o investidor (leia-se, depositante), e que, como tal, podem (e devem, se tal for o caso) falir como outra empresa qualquer, o mercado poderá regenerar-se, eliminando os maus bancos e construindo os melhores. Essa decisão acarretará riscos para o sistema económico-financeiro, com certeza. Mas, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o risco associado à manutenção da impunidade dos agentes financeiros, que se tem verificado até agora, levar-nos-á a um cenário potencialmente muito mais perigoso, podendo resultar numa crise de consequências difíceis de imaginar, na qual a própria sobrevivência dos regimes democráticos estará em causa. 

R. entregou uma pizza #à Arrenbentábolha

domingo, 29 de novembro de 2015

Monhé chama cega, preta e cigano ao governo

ptchan.net
É hora de analisar a composição do governo recentemente empossado. Uma vez que a posse foi há poucos dias, ainda não houve tempo do governo fazer obra, logo a análise do governo tem de se focar noutros temas. Sendo assim, e inspirado por um título do “Correio da Manhã”, decidi fazer uma análise baseada no que verdadeiramente interessa, ou seja, raças e etnias. Com base nesta análise, na qual me restrinjo aos elementos-chave do executivo, posso já avançar que este governo será, provavelmente, o mais bem sucedido da democracia portuguesa. Vejamos porquê.


O monhé – Primeiro-Ministro; com um primeiro-ministro monhé, temos a garantia que o chefe de governo tem olho para o negócio. Além disso, trabalhará longas horas, sem feriados nem folgas, em prol do crescimento económico da nação. Será sempre sorridente e solícito, e poderá servir tchai nas conferências do Eurogrupo. Quando sujeito a perguntas incómodas, poderá abanar a cabeça e ninguém perceber se está a dizer sim ou não. Nos momentos mais difíceis, poderá rezar a qualquer um dos milhares de deuses do panteão hinduísta. Por fim, o país terá, no final da legislatura, um sistema nacional de riquexós, servindo todas as capitais de distrito.

A cega – Secretária de Estado para a Inclusão de Pessoas com Deficiência; dotada da qualidade fundamental em qualquer cargo executivo, esta aquisição será uma mais-valia em qualquer ministério. Será um governante que trabalhará numa base racional com base no mérito, e não emocional com base em interesses, pois, como todos sabemos, “longe da vista, longe do coração”. Os atributos físicos deixarão também de ser um critério para admissão como secretária(o) na Assembleia da República e como assessora(o) de Ministros. Além disso, como tem os outros sentidos mais apurados, poderá ouvir as conversas da oposição (PSD/CDS-PP/BE/PCP-PEV/PAN), sentir o cheiro de um negócio mal amanhado, ou ainda apalpar o terreno sempre imprevisível das vontades do próximo Presidente da República. Prevê-se um futuro brilhante dentro do PS e do executivo para esta Secretária de Estado.

A preta – Ministra da Justiça; é, provavelmente, o único erro deste governo. Com ascendência angolana, seria muito mais útil no Ministério da Economia, das Finanças, ou dos Negócios Estrangeiros, mudança que, ainda assim, poderá acontecer numa futura remodelação governamental. Está numa posição fulcral, e tem as qualidades necessárias, para compreender os pormenores jurídicos dos negócios que envolvam Portugal e o seu país natal, assim como deslindar a complexidade do processo “Marquês”. O “Correio da Manhã” terá maior dificuldade em lhe tirar uma fotografia à noite, quando sair de carro do Ministério, logo teremos menos fugas do segredo de justiça. Com base na tradição angolana, poderemos esperar prisões de elementos subversivos que andem a minar as bases do regime democrático e garantir, assim, a segurança de todos nós. Único senão: ninguém deverá adoptar um comportamento diferente em relação aos alimentos com o objectivo de obter uma decisão favorável em tribunal, pois não terá o efeito desejado.

O cigano – Secretário de Estado para as Autarquias Locais; com um conhecimento aprofundado dos mercados e feiras, e habituado à gestão dos bairros sociais, não há ninguém melhor equipado para governar localmente de uma forma eficaz, sempre com um olho nas autarquias e outro no Povo. Está encontrado o digno sucessor do “Paulinho das Feiras”. Pode também, se tal for necessário, intimidar algum elemento menos crente dos parceiros dos acordos de governo do PS. Além disso, é possível que surja um Decreto-Lei a impor os casamentos arranjados a partir dos 14 anos, o que poderá ser uma medida essencial para aumentar a taxa de natalidade em Portugal. Por fim, poderá servir de elo diplomático com o número crescente de imigrantes da Europa de Leste que se estabelecem em Portugal, facilitando a integração social que todos desejamos.

Por tudo isto, alimento as maiores expectativas relativamente à acção governativa dos próximos tempos.

R. entregou uma pizza #à são todos pretos

sábado, 28 de novembro de 2015

Gestão de expectativas

Agora que já se deu a tomada de posse, receada por uns, temida por outros e protelada até ao limite do possível por um outro pobre diabo que por aí anda, agora a fazer ameaças veladas de que tem os seus poderes intactos (pode sempre ir à ComicCon no próximo fim de semana, brincar aos super heróis!) será porventura altura de deitar um pouco de água na fervura.

Escrevo, deitar água na fervura, porque pelo que vou vendo espalhado por aí, pelas redes sociais parece-me que há um grupo de pessoas que está com expectativas muito elevadas em relação ao Governo  do Partido Socialista apoiado por acordos bilaterais com BE, PCP e PEV que ainda agora tomou posse.

De repente depositam-se muitas esperanças num governo de esquerda do PS. Ora isso constitui uma novidade, até para o próprio Partido Socialista. Até agora, e tanto quanto me lembro, o Partido Socialista sempre governou ao centro. E mais estranhamente, à direita. Por vezes, mais à direita do que o próprio PSD. Os governos do engenhoso Sócrates apresentaram, propuseram e efectivaram medidas tão ou mais liberais do que o governo do PSD de PPC/PP.

Os eleitores de esquerda que apoiaram a decisão de António Costa de se aliar ao Bloco, ao PCP e aos Verdes estão à espera que chegue agora uma política de esquerda que apoie os trabalhadores, melhore os apoios sociais e que privilegie os cidadãos em detrimento dos apoios à banca, ao patronato e aos grandes grupos económicos que operam em Portugal. Cada sector da economia e da sociedade portuguesa está a tentar fazer-se ouvir. Na rua, em congressos, em manifestos, em reivindicações mais ou menos claras na tentativa de exercer alguma pressão e chamar a atenção para "a situação do sector" dos trabalhadores e afins. Cada classe profissional está expectante para saber as primeiras medidas que os novos ministros (17! e 41 secretários de estado. Começam bem! :s) vão propor.

De facto, a expectativa é grande.
Porém, manda a prudência que se moderem as expectativas para que o previsível tombo que pode estar escondido numa qualquer curva do caminho, não gele a esperança e não torne (quase) insuportável  a pouco menos miserável existência do trabalhador português. Pobre, cansado, esmifrado pela máquina fiscal e saturado de promessas e de novas esperanças e janelas de oportunidade que tardam a trazer-lhe algo que ele de facto precisa, quer, é útil, necessário e lhe facilita a vida. A cada post que vejo nas redes sociais de apoio às medidas que o Parlamento tem feito aprovar por força da maioria de esquerda existente, tremo de ansiedade.

Porque o  estado de graça e a Graça deste Estado, estão ameaçados pelas fragilidades políticas da coligação parlamentar de esquerda, pela múmia, esse pobre diabo todo poderoso que vagueia pelo Palácio de Belém, pela ala de direita do Partido Socialista, pela Comissão Europeia, as agências de rating (esses agiotas!) e pelos poderes instituídos em Portugal que actuam na sombra, nos corredores do poder, organizados em grupos de pressão e lobbies.

Não quero ser o Velho do Restelo. Mas também não quero ser o adepto que quando vai para o jogo prevê goleadas das antigas mas que volta para casa triste, de ar cabisbaixo porque a sua equipa foi cilindrada pelo adversário. Portanto, expectativas no mínimo. Assim, tudo de positivo que vier   tornar-se-á surpreendentemente bom!

E. entregou uma pizza #à centrão bipolar; #à insanáveis convergências

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

100 anos da Relatividade Geral de Einstein

einstein.stanford.edu
Faz hoje 100 anos que Albert Einstein entregou, na Academia de Ciências de Berlim, a sua versão final da Teoria da Relatividade Geral. Nela, apresentava equações matemáticas que relacionavam a gravidade com a geometria do espaço e do tempo. Tempo e espaço deixaram de ser entidades absolutas, meros espectadores da realidade física; a matéria molda a estrutura geométrica do espaço-tempo, e esta determina o movimento da matéria. Juntamente com a mecânica quântica, desenvolvida nos anos 20 do século passado, a Relatividade Geral constitui um dos pilares da Física moderna, mudando para sempre a nossa visão do universo. Com base nas suas equações, Einstein pôde fazer uma descrição muito mais rigorosa do movimento de corpos celestes e de raios de luz sujeitos à interacção gravítica, prevendo o desvio da luz perto de grandes massas. Além disso, também previu a existência de ondas gravitacionais, semelhantes a ondas electromagnéticas (como a luz visível), mas extremamente fracas e difíceis de detectar, o que pode explicar ainda não terem sido observadas.

Mas, como todas as grandes teorias físicas, a obra ultrapassou o seu criador. As equações apresentadas a 25 de Novembro de 1915 continham revelações que nem Einstein conseguiu, ou teve coragem, de reconhecer. Uma delas foi a que levou à maior descoberta científica do século passado, a expansão do universo, transformando o universo de algo eterno e imutável, para um sistema que teve um início, que evolui e que, provavelmente, terá um fim. As equações de Einstein provavam-no; Einstein não acreditou e modificou as suas próprias equações de modo que resultasse um universo estático. Poucos anos depois, o astrónomo Edwin Hubble viria a provar o contrário. Outra revelação foi a previsão da existência de corpos celestes com uma gravidade tão intensa que nem a luz lhes pode escapar, os chamados buracos negros. Einstein nunca acreditou neles, mas hoje há fortes indícios experimentais da sua existência, e a teoria desenvolvida a partir dos anos 60 do século passado descreve, com um grau de consistência interna notável, as condições, mecanismos e resultado final do colapso gravitacional de uma estrela, do qual pode resultar um buraco negro.

No entanto, todas as teorias físicas têm um âmbito de aplicação limitado, e a teoria da Relatividade Geral não é excepção. Por exemplo, sabe-se que ela tem limitações intrínsecas quando a natureza corpuscular da matéria se evidencia. Diz-se que é uma teoria clássica, e não uma teoria quântica. Não quer dizer que esteja errada; apenas quer dizer que o seu campo de aplicação não é infinito, isto é, existirão fenómenos que ocorrem na Natureza para os quais a teoria não tem explicação. A Relatividade Geral é notável no sentido em que a sua própria estrutura interna prevê as condições em que deixará de ser válida. Em situações de concentrações de massa extremas as equações de Einstein caiem por terra, indicando que nessas circunstâncias os modelos existentes actualmente, quer para a geometria do espaço-tempo, quer para a estrutura da matéria, deixam provavelmente de ser válidos em certas zonas designadas por ‘singularidades’. É precisamente o estudo destas situações extremas que nos permite esticar o nosso conhecimento até à sua fronteira actual e assim ‘espreitar’ um pouco o futuro da física e, consequentemente, da própria humanidade.

Centenas de anos antes de Einstein, Newton revolucionou a nossa visão do universo, mas só muito depois da sua morte a humanidade interiorizou a revolução científica que ele e outros protagonizaram: o determinismo das leis físicas, o optimismo científico, a posição do Homem e de Deus no universo. Da mesma forma, a visão einsteiniana do espaço e tempo ainda não foi assimilada pela esmagadora maioria da população, 100 anos depois da criação da teoria. Todos nós pensamos instintivamente de forma newtoniana, não nos dando conta que o espaço e tempo fazem parte da dinâmica do universo e não têm uma existência independente de nós. O progresso científico é por vezes lento, mas também pode ser extraordinariamente rápido e revolucionário. É impossível prever o grau de conhecimento científico quando se comemorar o bicentenário da teoria da Relatividade Geral, mas uma coisa é certa: a busca pela compreensão da Natureza continuará tão acesa como hoje, pois essa é uma das características básicas do ser humano. E, quem sabe, estaremos nessa altura a comemorar a visão singular de um próximo Einstein.

R. entregou uma pizza # à neutrinos à solta

A verdade sobre o 25 de Novembro de 1975 e o PCP

Arquivo DN / Global Imagens
Até há bem pouco tempo, o PCP era elogiado unanimemente pelos partidos e comentadores de direita como um partido responsável, que canalizava o voto de protesto, mas que não levantava grandes ondas no panorama social português, não sendo portanto um partido “radical”. A partir do momento em que a hipótese do PCP integrar um governo de coligação de esquerda se tornou credível, a opinião política mudou. Choveram referências históricas ao marxismo-leninismo, ao radicalismo da esquerda portuguesa, ao PREC, e ao 25 de Novembro, data emblemática (do ponto de vista da direita portuguesa, e do PS) da tentativa de tomada de poder pelas forças radicais de esquerda, faz hoje 40 anos. Nestes dias conturbados, em que a arma do medo volta a ser empunhada com veemência por variados actores políticos, convém esclarecera natureza do 25 de Novembro e o papel desempenhado pelo PCP. Não tenho idade para ter vivido o 25 de Novembro de 1975, e não sou especialista da matéria. No entanto, apesar do distanciamento histórico ainda não ser suficiente, vários especialistas estudaram esse momento. Analisemos então a verdade histórica.

1. O PCP era, à época, um partido internacionalista, sob a capa protectora e orientação política da URSS.
2. No contexto internacional de guerra fria, era completamente impossível a instauração de um regime comunista em plena Europa Ocidental; os EUA nunca o permitiriam, sabendo-se inclusive hoje que existiam planos de invasão do nosso território se isso viesse a acontecer. A URSS sabia-o, e a cúpula do PCP também.
3. Durante o PREC, o PCP clamou sempre pela defesa da jovem democracia portuguesa, e contra a instauração de qualquer nova ditadura, de direita ou de esquerda.
4. Existia uma facção das Forças Armadas e uma corrente política mais radical do que o PCP, corporizada em diferentes pequenos partidos, que defendiam um rumo mais radical, do estilo “é agora ou nunca”. A extrema-esquerda sempre foi um problema para o PCP.
5. O PCP sempre receou um golpe contra-revolucionário, possivelmente em resposta a um levantamento militare de esquerda, que aniquilasse a esquerda política e militar portuguesa.
6. Hoje sabe-se que o PCP fez um acordo pré-25 de Novembro com o chamado Grupo dos Nove, no sentido de assegurar o seu não apoio a acções radicais da esquerda militar, sendo que há testemunhos que terá havido um encontro entre Álvaro Cunhal e Melo Antunes nas vésperas do 25 de Novembro.
7. A 25 de Novembro, dá-se um levantamento militar de tropas pára-quedistas, em reacção a uma série de medidas impostas sobre a unidade, e, em resposta, uma força militar chefiada por Ramalho Eanes põe fim ao que seria o início de um golpe revolucionário.
8. Durante o dia de 25 de Novembro, o PCP mantém-se à parte das movimentações, não apoiando a saída de forças militares próximas do partido, e recusando a distribuição de armas a centenas de militantes que, junto das sedes do PCP e das unidades militares, as pediam.
9. No dia 26 de Novembro, Melo Antunes vai à televisão dizer que o PCP é fundamental para a construção da democracia portuguesa e, contra a opinião do PS e da direita portuguesa, rejeita a ilegalização do partido comunista.

Moral da história: no final do “Verão Quente”, no auge do PREC, o PCP rejeitou a via revolucionária, não apoiando quaisquer acções militares para a tomada do poder, e optando pela integração no regime democrático. Sendo assim, hoje, 25 de Novembro de 2015, os portugueses poderão dormir descansados; o governo que tomará posse em breve é apenas um governo do PS com apoio parlamentar das forças políticas à sua esquerda. Inédito? Sim. Revolucionário? Não.

R. entregou uma pizza #à ódios de estimação

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Cavaco, o pai tirano da Democracia

Quando li as exigências do presidente Cavaco Silva à indigitação de António Costa e um governo de esquerda, não queria acreditar. De entre uma lista, surgia o compromisso de “Estabilidade do Sistema Financeiro”. Estabilidade do Sistema Financeiro? De repente parei a olhar para aquilo e lembrei-me de recolher uma série de frases proferidas pelo mesmo presidente ao longo deste ano:

“O Presidente da República considera que Portugal pode tornar-se um país ingovernável se não existir estabilidade política.” Será que queria dizer estabilidade financeira? Ops…

“Não podemos regredir num caminho que foi árduo” Ops… será que temos que permanecer abaixo de lixo para sempre? É essa estabilidade financeira que Cavaco Silva quer? Sim, porque é aí que temos estado…

"Portugal tem neste momento uma reserva de fundos financeiros para manter a economia durante, vários, vários meses." Se Cavaco Silva acha que há assim tanto dinheiro reservado, de que estabilidade precisa?

“Irei tudo fazer para impedir que sejam transmitidos sinais errados às instituições financeiras, aos investidores e aos mercados, pondo em causa a confiança e a credibilidade externa do país” Será Cavaco Silva presidente dos portugueses ou das instituições financeiras?

"Os agentes políticos devem assumir, de uma vez por todas, uma cultura de responsabilidade e uma cultura de verdade" Será que Cavaco Silva se ouve a si próprio?

“Decidirei nos termos dos meus poderes constitucionais e colocando sempre em primeiro lugar o superior interesse nacional." Qual nação? A Fitch? É que em comunicado a 10 de Novembro, a Fitch referiu que "um Governo liderado pelo Partido Socialista, de centro-esquerda, e apoiado pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista Português, mais radicais, iriam levar a uma maioria parlamentar", mas alerta que "isto não vai eliminar a incerteza política". Para além de ser uma grave ingerência nos assuntos nacionais, parece que o Presidente da República português concorda com ela.

Cavaco Silva esqueceu-se de dizer que cabia agora a António Costa controlar a Fitch, e restantes agências de rating, o FMI e as diversas agências financeiras. No fundo, o que Cavaco Silva quer é que Costa seja responsável pelo sistema financeiro mundial. Terminaria com um conselho que Cavaco Silva deixou ao governo grego "O governo grego foi aprendendo que a realidade é diferente dos sonhos”. Senhor Presidente, a realidade é diferente dos SEUS sonhos!

C. entregou uma pizza #à pai tirano

domingo, 22 de novembro de 2015

Estados falhados e a falha do Estado

Índice de Estados falhados; fundforpeace.org
O conceito de “Estado falhado” surge frequentemente associado àqueles países subdesenvolvidos que não têm estruturas básicas de serviço às suas populações. Mas, ao contrário do que esta designação possa indicar, estes não são países onde o Estado falhou, mas sim onde o Estado nunca chegou a nascer. Estes casos estão bem estudados pelos especialistas. De uma forma genérica, são caracterizados por uma corrupção generalizada, que permeia todos os segmentos da população e todas as actividades, um sistema político não democrático, cujos actores se eternizam no poder através da ausência de eleições livres, a ausência de uma máquina fiscal eficiente, um sistema judicial dependente do poder político e económico, e a ausência de uma imprensa livre e reguladora. Serviços públicos fundamentais, como educação, saúde e forças de segurança pública, não têm financiamento adequado. Infra-estruturas básicas, como estradas, escolas e hospitais, são deficientes. Os poucos serviços que existem são muitas vezes olhados como dádivas de um ditador benevolente, ou como benesses de senhores da guerra ou grupos organizados que controlam aquilo que, no terreno o Estado não consegue ou não quer fazer. Regra geral, a ausência da máquina administrativa do Estado não tem como origem um problema de financiamento, mas sim de gestão. Em muitos casos, estes países são muito mais ricos em recursos naturais do que países ditos desenvolvidos, recursos cujo rendimento passa completamente ao lado da larga maioria da população. Os poucos países que evoluem para um sistema democrático e mais igualitário são aqueles cujos cidadãos conseguem libertar-se das amarras da impotência e indiferença, e se substituem àqueles que se servem do sistema, edificando novas instituições que permitem, ao longo do tempo, a construção de um sistema mais equilibrado e mais justo.
Ao mesmo tempo, nos países industrializados, a tendência é a oposta. Prospera a ideia de que os Estados modernos cresceram excessivamente, e que a sua pesada burocracia limita o crescimento económico e a liberdade individual. Os mercados liberalizados deverão auto-regular-se e a economia de mercado deverá substituir a máquina pouco eficiente do Estado, passando os serviços privados a prestar os serviços básicos à população. Educação, saúde e transportes são as áreas centrais em que se verifica a transferência de competências e responsabilidades do sector público para o privado. E a principal justificação apresentada para esta tendência é, além da suposta ineficiência dos serviços públicos, o problema de financiamento do Estado. Paralelamente, as diversas instituições democráticas, que deveriam ser independentes entre si, e confiáveis aos olhos da população, vivem tempos de crise. Face à diminuição na quantidade e qualidade dos serviços públicos, a máquina fiscal é paradoxalmente cada vez mais pesada. O sistema judicial é demasiado lento e aparenta ser permeável à influência do poder económico e político. A dependência dos actores políticos em relação ao sistema económico e interesses privados levam a um crescente distanciamento dos eleitores em relação aos seus representantes, e a uma crescente sensação de indiferença, revelada por exemplo na diminuição da participação cívica e política da chamada sociedade civil, e nos elevados valores da abstenção em todos os actos eleitorais.
E aqui se fecha o círculo. Ao mesmo tempo que tomamos como garantido o facto de termos um Estado capaz de executar tarefas básicas, lentamente estamos a esvaziá-lo da sua capacidade real de interferir positivamente na gestão do país. Ao mesmo tempo que tomamos como garantida a democracia, abusamos das instituições democráticas, descredibilizando-as aos olhos da população. Ao mesmo tempo que tomamos como garantida a separação, responsabilização e regulação mútua dos poderes institucionais, assistimos à degradação diária das estruturas governativas e à evidente promiscuidade dos diferentes poderes instituídos. O desfecho lógico deste processo é claro, ainda que seja difícil reconhecer aos olhos daqueles que tomam como garantido tudo aquilo a que estamos habituados. Tal como os casos dos Estados falhados demonstram, quando o Estado desaparece, alguém ocupa sempre o vazio na estrutura do poder. É que quando o regime democrático deixa de funcionar para os cidadãos, que são, afinal, a razão da sua existência, perde a sua legitimidade e é apenas uma questão de tempo ser substituído por outro.

R. entregou uma pizza #à politicamente irrelevante
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...