sexta-feira, 8 de julho de 2016

Get the F*ck Out of Here!

Brexit, ouviram falar?

Tenho andado num estado de estupefação relativamente a este assunto. Considero que os povos têm o direito (dever?) de dar a sua opinião relativamente ao destino que pretendem dar ao seu país. Os políticos e os opinion makers favoráveis ao brexit têm toda a legitimidade para argumentar no sentido de o Reino Unido deixar de fazer parte da União Europeia, tal como os defensores da permanência têm também o direito de apresentar argumentos que sustentem a sua posição. Os resultados obtidos no referendo do passado dia vinte e três de junho ditaram a saída do Reino Unido da UE.

Os resultados obtidos no referendo determinaram a demissão de Primeiro-Ministro Cameron do cargo que ocupava no Governo Britânico. Normal, tendo o homem defendido a permanência do Reino Unido na União.

(Sou só eu que que acho estranho que o homem que propôs a realização do referendo, numa manobra de pressão sobre a União Europeia e tenha defendido durante meses de forma subreptícia e tão britânica, que se calhar, o UK estaria melhor fora da UE, faça depois campanha pela permanência?E que depois, qual virgem ofendida se demita por não ter conseguido que o seu lado da questão fosse vencedor?)

Pouco tempo depois os partidários da saída do UK vieram reclamar vitória, dizendo que era a vitória da independência do Reino Unido e que o povo britânico era novamente dono do seu destino. A coisa começa a descambar, quando nas semanas seguintes, cada um dos líderes dos partidos políticos e movimentos partidários do brexit começou a abandonar o cargo que ocupava. Baralhados?! Eu confesso que sim. Baralhado e perplexo perante as declarações do ex-líder do UKIP que diz que atingiu o objectivo a que se propôs, que nunca quis ser político e que portanto se demitia do cargo de líder porque tinha conseguido aquilo a que se tinha proposto.

Say what?!
Então este senhor, líder de um partido político nacionalista, vagamente xenófobo, anti-imigração, consegue convencer a maioria do eleitorado britânico a votar favoravelmente a saída do seu país da UE e depois demite-se? Era esse o projecto político? Tirar o país da União Europeia e a seguir virar costas? O que pensarão agora os militantes do UKIP? Que orgulho! Faço parte de um partido político que tinha como único objectivo que o Reino Unido saísse da UE! E a saúde? E a educação? E a segurança? E as políticas económicas? E as finanças do país?

Tempos perigosos estes em que se reduz um projeto político a uma única acção sem ter em consideração as consequências. A libra está em queda livre. Há rumores fundados de fuga de capitais e de empresas para outras paragens. O número de pedidos de informação sobre as condições para aceder ao programa português de vistos gold subiu exponencialmente desde que se soube o resultado do referendo.

Mas espera aí... de que país é que estamos a falar? Do Reino Unido! Aquele país que aderiu à União Europeia em 1973 e que não aderiu ao espaço Schengen e por isso tem controlo fronteiriço (o que não impediu os lamentáveis atentados em Londres), não aderiu à Moeda Única (e por isso tem a libra esterlina como moeda oficial) e na verdade, esteve dentro da União, mas com um pé fora. Então, a saída da UE vai fazer de facto alguma diferença?

É uma boa pergunta. Vamos esperar para ver o que vai acontecer. Para já "os mercados", esses abutres andam a rondar a carcaça ensaguentada do Reino Unido à espera que o corpo moribundo dê o seu último suspiro.

E. entregou uma pizza #à centrão bipolar, #à políticamente irrelevante; #à fritei a pipoca

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Euro 2016 - Notas soltas...

Portugal - Bola e praia. Viva!
Queremos saber de transmissões em directo de emigrantes a gastar do seu tempo de folga para ficar a olhar para o hotel onde está alojada a selecção. As transmissões em directo da saída do autocarro para o aeroporto que têm o poder de interromper programas/notícias/debates sobre o brexit, a CGD ou qualquer outro tema muito mais importante mas muito menos destacado e apelativo.
Entretanto a Geringonça vai funcionando para espanto (e mal) de uns quantos, a CGD está prestes a dar o peido-mestre, o Paulinho das Feiras foi para a Mota Engil, essa conhecida ONG, a Comissão Europeia tenta decidir se nos encava mais um bocadinho ou não, o Marcelo continua no seu ritmo coelhinho Duracell e a malta quer é... Futebol! Tanto que a bandeira das quinas e A Portuguesa são mais símbolos de uma selecção do que de um país... Triste!
Ó malta... e se usássemos uma décima parte da dedicação para levarmos o país para a frente? (não, não estou a falar da equipa para o ataque!!!)

Espanha - PoPodemos (não, não é gralha...)
Nuestros hermanos foram às urnas (outra vez) e a coisa está entalada. Afinal o Unidos Podemos não foi tão longe (parece-me que o Iglesias está a pagar algum atrevimento e uns tiques), o PSOE não caiu tanto, o PP até subiu e os Ciudadanos começaram a perder gás... A Comissão Europeia deve ter ficado relativamente satisfeita... Se aquele gajo do rabo de cavalo ganha ia ser uma treta (e choviam sanções na Península Ibérica).
Ahhhh! E a Bella Itália mandou os bicampeões da Europa para casa.

França - Je suis François
O François não sabe para onde se virar... Ele é o Euro (com os nervos em franja por causa da segurança), ele é o €uro (por causa do Brexit), ele é o Brexit, ele é, enfim, a Marine! A Marine que parece muito mais ele do que o próprio François! Ele é/está amorfo. Ela está cada vez mais empertigada. Nem consegue disfarçar o sorriso que se forma pelo gozo que deve sentir pelo andar da carruagem, tanto em França como no resto da velha Europa.
E pelo meio lá conseguiram desenvencilhar-se dos tipos porreiros que são os O'Irish! Que pena!

Reino (des)Unido - BiBrexit!
A desinformação é uma arma poderosa, não é? O medo instigado nos old chaps da Albion foi capaz de fazer subir intenção de voto no Brexit até à vitória. O medo dos malditos estrangeiros foi mais forte do que o medo de sair da UE e assim aconteceu a saída de um país que, verdade seja dita, nunca esteve inteiramente dentro da União Europeia. Agora temos uma fatia da população jovem revoltada pelo votos dos mais velhos, temos a população estrangeira assustada com o futuro, temos a malta dos kilts a ameaçar bater com a porta.
Pelo meio o Will Grigg não esteve on fire no Euro e o Ulster e a Inglaterra fizeram um Brexit 2. Resta Gales para tentar manter a honra do convento.

Alemanha - Alles ist gut
Zee germans (ver Snatch, Porcos e Diamantes) estão mais sozinhos no comando da UE. Na verdade sempre estiveram mas agora, sem a sombra dos brits e com o molengas do François estão mais na mó de cima do que nunca. Ditam as regras no Euro e no €uro. E na Europa da economia e da política as coisas são como na Europa do futebol. São onze contra onze (mais coisa menos coisa) e no fim ganha a Alemanha!

Bélgica - Um xixi em cima da xenofobia
O país ainda não se refez dos atentados no aeroporto e no metro, das buscas no bairro de Molenbeek, de todas as ameaças e medos. A Bélgica, esse país que há uns tempos atrás nos mostrou que é possível funcionar sem governo, dá agora uma lição de integração através da sua selecção de futebol. Da última vez que eu vi a Bélgica era composta por uma parte flamenga e outra francófona. Mas a selecção tem descendentes de magrebinos, espanhóis, congoleses, indonésios, malianos, portugueses e quenianos, isto se não contarmos seleccionáveis que por uma ou outra razão não foram à França.
E que melhor forma de eliminar a Hungria, com os seus adeptos fascistas (ou marxistas, como provavelmente JRdosS lhes chamaria) do que às mãos (ou pés) desta multicultural Bélgica? Justiça divina! 
Fica aqui uma palavra para outra multicultural selecção... os neutros, indeterminados, abstidos... a selecção da... Suíça! Ups! Da Albânia 2!

Turquia - De certeza que querem fazer parte disto?
Os cada vez mais nacionalistas turcos estão a deixar-se levar por um Erdogan com a mania das grandezas. Erdogan tem o dom de pegar no estado laico de população maioritariamente muçulmana criado e construído de forma sustentada por Ataturk e levá-lo perigosamente por caminhos cada vez mais obscuros ligados ao conservadorismo religioso. Do meu ponto de vista a Turquia podia ser a porta que ligaria o mundo ocidental ao mundo do Médio Oriente. A Turquia podia ser um farol. E não é que o sacana do Erdogan põe-se a atirar pedras à luz do farol? E ainda convence o bom do povo turco que se anda melhor às escuras?
Embora o acordo secreto com a UE pareça ser mais uma aproximação da Turquia à Europa, aos meus olhos os que os turcos querem é manter a distância. Tanta que já saíram do Euro. Pela porta pequena.

Rússia - Arrussieiros
Chegaram cedo à França e cedo partiram. E partiram tudo! Cadeiras, copos, cabeças inglesas... A Rússia esteve no Europeu sem glória nem honra. E os seus adeptos (uma minoria...) sublinharam a postura da sua selecção. E, pasme-se (na verdade não...) os líderes russos, com Vladimir Putin à cabeça, passaram um pano nas acções dos seus vândalos e a mão na cabeça dos mesmos. Mas a quem surpreende esta postura do Todo Poderoso? A mim não... O senhor Putin é talvez o rosto mais visível da onda nacionalista que se espalha pelo Velho Continente. 

Islândia - Os vikings estão de volta!
Melhor do que os irlandeses (da República ou do Norte) só mesmo os islandeses!
A população desta ilha agreste e escassamente povoada mostra-nos a nós continentais (não, não estou a falar da Madeira) como se governa uma nação. O que não está bem muda-se. O que está errado corrige-se. O que é nosso somos nós que governamos. Tomamos o nosso destino nas nossas mãos. E tão verdade é esta postura do povo islandês que o mesmo se reflecte na postura dos seus bravos em campo. Veja-se como a provavelmente mais fraca selecção do torneio segue determinada e inspiradora no seu caminho de glória.

J. entregou uma pizza #politicamente irrelevante, #à coçador

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Futebol e coiso e tal

tsf.pt
Sou homem, sou português, e gosto de futebol. Mais de vê-lo do que praticá-lo, diga-se em abono da verdade. A um dia do início de mais um Campeonato Europeu de futebol, como tantos portugueses, desejo ver alguns bons jogos e, quem sabe, vibrar com um brilharete da Selecção Nacional. Acho isto perfeitamente aceitável e normal. Mas encaro como algo completamente diferente a dimensão que o futebol tem na vida das pessoas, quer a nível pessoal, quer a nível institucional. Que as instituições políticas e sociais, assim como a comunicação social, explorem o filão do futebol até ao tutano é certamente compreensível, embora raiando o insuportável, pois estas só procuram agradar às pessoas, dizendo e mostrando aquilo que a maioria quer ver. Sendo assim, tudo se resume ao nível pessoal. 
Compreendo perfeitamente quem tem uma paixão pelo futebol. Não vou pelo discurso “são só onze gajos de cada lado atrás de uma bola a tentar metê-la numa baliza” pois as descrições literais revelam quase sempre muito pouco daquilo que nos atrai nas coisas. Por exemplo, uma outra paixão masculina deveras conhecida poderia ser descrita como “a parte do corpo feminino, constituída essencialmente por tecido adiposo, responsável pela produção de leite após o parto”. É esquisito, mas é a realidade; nós gostamos de coisas banais.
Mas uma coisa é ter o futebol como paixão. Outra, é o futebol ser a única paixão de uma pessoa. Ser o único aspecto da vida que faz a pessoa rir, chorar, exaltar-se, enfim, sentir-se viva. Olhemos para o comum dos portugueses. Esqueçam a família, nem nos lembrem a política, muito menos a literatura, as artes, a ciência, e o conhecimento em geral. A única coisa que faz vibrar realmente um português é o futebol. Esse comportamento básico e acéfalo é totalmente inaceitável.
Nos meus tempos de adolescente, passei por uma fase em que era um adepto ferrenho, quase fanático, do clube mais representativo da minha cidade natal. Quando esse clube perdia, principalmente quando assistia ao vivo ao desaire, parecia que o meu mundo acabava, e aquilo afectava-me profundamente. Por outro lado, sentia uma alegria imensa ao ir assistir a um jogo, e comungar do sentimento de pertença a uma comunidade, partilhar das alegrias com os outros, gritar ‘golo’ ao mesmo tempo que cem mil outras pessoas. Hoje já não o sinto da mesma forma determinante para a minha felicidade. Porquê? Pela mesma razão de que já não como terra do chão, não faço xixi na cama e não choro quando tenho sono; simplesmente cresci.
Os valores que me guiam, os anseios e receios que me impulsionam, os princípios que balizam a minha vida passaram a ser outros. Transcendi aquilo que se passa dentro de quatro linhas de um qualquer relvado, num qualquer estádio, num qualquer fim-de-semana. E é isto que uma pessoa adulta deveria fazer. Sublinho, adulta. Por isso, para quem se chateia com os seus amigos por causa de futebol, quem bate na mulher por causa das derrotas do seu clube, quem espera pela chegada da equipa às tantas da madrugada ao aeroporto, quem chora um penálti falhado, quem comete qualquer tipo de violência num estádio de futebol, quem insulta indiscriminadamente os adeptos do clube adversário, quem faz discursos inflamados sobre o que é ser do seu clube desde pequenino, só tenho uma palavra: cresçam! E, quando um dia conseguirmos ser todos adultos, talvez o mundo se transforme num lugar melhor. Com lugar para o futebol, mas com espaço para muito mais do que isso.
R. entregou uma pizza #à coçador

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Quo vadis Homo sapiens(?)?


Nota prévia: Não, não sou de uma espécie diferente. Sou da espécie que a seguir enxovalho por isso mesmo, se quiserem, as notas que se seguem são, em última análise, uma auto-crítica.

Notas soltas:
- trinta seres humanos drogaram e violaram outro ser humano;
- um ser humano adulto, responsável por seres humanos menores, em nome de um dos supostos criadores do ser humano, prendeu pequenos seres humanos a sanitas, obrigou-os a conviver com os cadáveres de outros seres humanos;
- seres humanos eleitos por outros seres humanos derrubam outros seres humanos e aproveitam-se do poder de que foram incumbido para olhar pelos interesses próprios.
Podia continuar com uma sequência infindável de notas soltas sobre seres humanos. Fiquemos por aqui. Não me apetece escrever sobre a violação colectiva no Brasil, o caso do lar cá em Portugal ou a balbúrdia no poder brasileiro.

O ser humano perdeu a humanidade, parece-me. E isso nota-se nas coisas pequeninas.

Dos pontos de onde me é permitido observar e absorver aquilo que o ser humano é e faz vejo cada vez mais situações absurdas, sem sentido, perdidas, incompreensíveis. A minha capacidade de raciocínio revela uma incapacidade tremenda para encontrar razão em boa parte do que vejo e ouço, em boa parte do que presencio.

Às vezes parece-me que o ser humano se move pela ganância, pelo ter, pela pressão da sociedade. Move-se pela inconsciência, pela ignorância, pelo egoísmo.
Às vezes parece-me que não se move por estar agarrado pela apatia, pela dormência, pela resignação. Pelo medo também. O medo dos outros. Do que os outros possam fazer, mas também do que os outros possam não fazer e possam sentir. E o medo do eu. De falhar, mas também de acertar.
Às vezes parece-me que o coração e o cérebro do ser humano se deslocaram para o umbigo (com a proximidade aos intestinos que lhe é reconhecida).

Que caminho segue este ser humano que formou uma sociedade? Que caminho segue esta sociedade?
Chamem-me picuinhas, mas…
- dêem-me uma boa razão para abrir a janela do carro e deitar o plástico da embalagem de pastilhas elásticas que acabei de abrir para a estrada. Têm uma boa razão?
- dêem-me uma boa razão para passar à frente de alguém numa fila. Têm uma boa razão?
- dêem-me uma boa razão para parar num semáforo quando este está verde, só para que um amigo entre no nosso carro. Têm uma boa razão?
- dêem-me uma boa razão para levar para casa, retiradas do meu emprego, resmas de papel, material de construção, livros, pensos rápidos. Têm uma boa razão?
- dêem-me uma boa razão para marcar uma consulta ou um trabalho ou um serviço com alguém e deixar a outra pessoa a esperar 5, 10, 20, 30 minutos ou mais. Têm uma boa razão?

E agora dêem-me boas razões para:
- ver alguém deitar um papel ao chão e não chamar à atenção ou, na pior das hipóteses, nós mesmos apanharmos o papel;
- tolerarmos que alguém passe à nossa frente numa fila;
- não denunciar alguém que claramente prejudica o lugar onde nós trabalhamos;
- não fazer uma reclamação de alguém que não cumpriu com as suas obrigações profissionais.
Têm boas razões?

Sei que são coisas pequeninas quando comparadas com roubos de milhões, corrupção, violência, violações mas, corrijam-me se estiver errado, é absurdo ver uma ligação entre estas coisas todas? A origem não é a mesma?

O ser humano educa pelo exemplo. Mesmo que não queira. E estamos a educar tão mal! E a educação não é apenas das crianças e dos jovens porque afinal de contas... aprendemos toda a vida.


O ser humano, e a sociedade que ele formou, está muito podre, estagnada, pestilenta.

Apetece cantar isto:


J entregou uma pizza à Arrebentábolha, à fritei a pipoca

domingo, 22 de maio de 2016

Vícios privados, públicas virtudes

Costuma-se utilizar a expressão a propósito do carácter ou falta deles de figuras públicas, nomeadamente políticos que enaltecem os seus pontos fortes e fazem por esconder os aspectos mais significativos do seu lado lunar.

Vem isto a propósito de toda esta questão do fim do financiamento a novas turmas das escolas privadas com contrato de associação que se localizem em áreas geográficas em que a exista oferta pública e capacidade instalada para acolher esses novos alunos, de acordo com um despacho recentemente publicado.

Vamos os argumentos: da parte do Governo, o argumento é simples: havendo escolas públicas com capacidade para acolher alunos no próximo ano lectivo, e sendo essas escolas do Estado e portanto, suportadas pelo Orçamento de Estado, não faz sentido estar a financiar essas turmas em escolas privadas com Contrato de Associação, que de acordo com as informações da Secretária da Educação são substancialmente mais caras do que turmas iguais em escolas públicas. Do lado das escolas com Contrato de Associação os argumentos são os de que se põe em causa a liberdade de escolha dos pais na hora de decidir a escola em que querem que os seus filhos estudem; que vai pôr em risco postos de trabalho de professores e funcionários; que é a quebra dos compromissos assumidos com o governo anterior; que impede os pais de escolher o Projeto Educativo que pretendem ver aplicado aos seus filhos.

Há uma série de aspectos que são no mínimo questionáveis nos argumentos apresentados. Senão, vejamos: deve ser incapacidade minha mas, não consigo entender como é que o fim do financiamento público a novas turmas em escolas com contrato de associação é terminar com a liberdade de escolha. Os pais continuam a poder escolher a escola em que querem que os seus filhos estudem. A única diferença é que se pretenderem uma escola privada, provavelmente, terão de pagar. Mas não é assim com tudo? Dar-me-ia muito jeito ter casa própria com três quartos, garagem, jardim e piscina. Como não tenho meios financeiros, nem estabilidade profissional para tal, limito-me a viver num apartamento t2 alugado. Não me passa pela cabeça, alugar a tal casa de sonho e depois ir pedir ao Governo que me pague a renda. Não podem pagar? Existem escolas públicas em que não há mensalidades.

Seguinte: a questão do desemprego é porventura aquela que mais me preocupa, uma vez que põe em causa a estabilidade de famílias e isso é, obviamente, preocupante. Contudo, estou em crer que uma parte significativa dos professores que sejam eventualmente afectados por despedimentos colectivos encontrarão na escola pública lugar para continuarem a trabalhar. Porquê? Porque na escola pública o horário lectivo é de 22 horas enquanto que há escolas com contrato de associação que obrigam os professores a leccionar 30 horas semanais. Conheço vários casos de professores que se encontram actualmente a trabalhar em escolas com contrato de associação que têm um imenso rol de queixas a fazer relativamente às suas escolas/empresas e à forma como estas cumprem (ou não) as suas obrigações com os trabalhadores. Desde atrasos no pagamento, a trabalho extraordinário não pago, horários sobrecarregados, tentativas de condicionamento, abuso de poder, a lista não pára e há vários casos conhecidos e documentados pela comunicação social.

O argumento da quebra dos compromissos assinados com o anterior governo é patético. Tão patético quanto foram os cortes dos subsídios de Natal e de Férias ou os Orçamentos de Estado com pontos inconstitucionais. Os acordos anteriores não foram rasgados. As escolas não foram fechadas. Apenas não terão financiamento público para novas turmas. As já existentes, manter-se-ão até final do respetivo ciclo de ensino. Que sentido faz estar o Estado (e recordo que o Estado somos todos nós!) estar a pagar por algo, que ele próprio tem capacidade de fazer? (Seria muito interessante que este princípio fosse aplicado a outras áreas da sociedade e sectores da função pública portuguesa e negócios do Estado, como as PPP, por exemplo!)

O último argumento apresentado, o do Projecto Educativo é de todos o mais estranho. Não porque os Projectos Educativos sejam pouco importantes mas porque serão muito poucos os pais que escolhem a escola em função do seu Projecto Educativo. Arrisco mesmo dizer que a imensa maioria não sabe sequer o que é o Projecto Educativo, para que serve ou como é construído.
Os pais escolhem a escola dos filhos em função de factores da proximidade de casa ou do seu trabalho, dos horários, das actividades oferecidas, dos transportes escolares que a esmagadora maioria destas escolas oferece.

É que, de repente, quem esteja de fora do mundo da educação pode ser levado a pensar que as escolas com contrato de associação são os pináculos das instituições educativas em Portugal e que as escolas públicas são um antro de perdição, criminalidade e ninho de vícios e maus hábitos.

Não tornem esta questão numa questão de qualidade de ensino, porque não é disso que se trata. Não é uma questão sobre que escolas preparam melhor ou pior. Nem de saber quais têm melhores professores.
Esta é uma questão de gestão racional de recursos financeiros.
Só isso.
E desse ponto de vista, parece-me uma decisão acertada.

E. entregou uma pizza #à 'tou que nem posso; #à forças demoníacas

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O dia em que as crianças foram "abusadas" pelas escolas

Imagem da RTP
Tenho visto com alguma repulsa aquilo que os telejornais mostram todos os dias no que diz respeito à luta entre o Ensino Público vs Ensino Privado. Se inicialmente era fácil fazer esta discussão, pois tudo se tratava de uma questão económica e política, as coisas foram evoluindo para um patamar muito mais radicalizado. Uns defendem o Ensino Público, outros o Ensino Privado. Se a forma como público e privado se promiscuem é altamente censurável, ainda aí, a discussão fica restrita ao panorama política e às escolhas governamentais. Quando pensamos que apenas 3% dos colégios privados recebem a maioria dos apoios públicos vemos que a questão não é apenas política ou económica. É, provavelmente, um (ou vários) casos de polícia. E na qualidade de cidadã de um Estado de Direito, exijo justiça.
 
Mas, no meio desta troca de argumentos explicados de todos os lados, dei por mim a ver imagens de crianças de 7 e 8 anos, vestindo camisolas amarelas, gritando à chuva. Será que o país acha isto normal?
 
A verdade é que parece que sim. Os portugueses discutem as vantagens da Escola Pública e o investimento público a determinados colégios privados, sem se aperceberem do que verdadeiramente se está a aqui a passar. Como chegamos aqui?
 
Quem autorizou os professores a deixarem os alunos saírem das salas de aula para virem para a rua nos tempos lectivos?

Quem permite que os próprios filhos façam cordões humanos à volta dos colégios, fazendo as crianças passar horas à chuva?
 
Quem leva os alunos para manifestações no Túnel do Marão ao fim-de-semana (e mais uma vez à chuva)?
 
Quem tenta dizer às crianças que a sua escola vai fechar e que terão que mudar de escola (sabendo que o Ministro da Educação já garantiu que nenhuma das turmas que estão em funcionamento irá fechar)?
 
Que pais aceitam que as aulas sejam convertidas em sessões para escrever cartas aos ministros?
 
Quem autoriza a captação de imagens e vídeos a estas crianças quando dentro da Escola Pública os pais necessitam de autorizar que os seus filhos sejam fotografados nas visitas de estudo?
 
Todas estas imagens inundaram os telejornais e a discussão manteve-se entre as vantagens do Ensino Público e do Ensino Privado. Há muito que já passamos essa discussão. Essa é uma discussão puramente ideológica. Há muito que a discussão passou para o plano humanitário e nós nem nos demos conta.
 
E se de repente, todos os professores da Escola Pública decidissem fazer o mesmo?

Colocassem os alunos a escrever cartas nas aulas para os ministros...  
Colocassem os alunos a manifestar-se pelos seus interesses corporativos...
Levassem os alunos para as manifestações...
Instrumentalizassem pais e crianças...
 
O que diria o país e o mundo disto?
 
É triste, muito triste, ver que as crianças estão a ser "abusadas" desta maneira; E sim, este termo é muito forte mas não será o termo certo? Escolas, pais e professores colocam os seus interesses à frente do bem estar das crianças que deviam proteger. Mas mais do que triste, é CRIME. São crimes contra a Humanidade. São violações dos Direitos das Crianças, consagrados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, da ONU, e pela Declaração Universal dos Direitos das Crianças, da UNICEF.

Assistir-se em Portugal a uma degradação dos direitos individuais dos cidadãos em detrimento dos interesses económicos é muito mau, mas assistir-se a uma degradação dos direitos das crianças com a cumplicidade dos pais é ainda pior. Onde está a superioridade do ensino ou da educação?
 
Imagem do JN
Terminaria apenas com um artigo da Declaração Universal dos Direitas das Crianças:
 
"O interesse superior da criança deverá ser o interesse director daqueles que têm a responsabilidade por sua educação e orientação; tal responsabilidade incumbe, em primeira instância, a seus pais."
 
 
C. entregou uma pizza à #impalador

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Bêbados de Verdades...



“Diga ao mundo que somos felizes”. A frase proferida por provecta cidadã da Coreia do Norte à jornalista da TSF, Margarida Serra, aquando da visita recente desta a um lar na cidade de Pyongyang gerou em mim um sentimento de profundo mal estar, destes que não passam com Alka Seltzer nem com duas garrafas de Água das Pedras. Enganam-se se pensam que dissertarei sobre a “democracia” norte coreana, nas palavras do atual Presidente da Câmara Municipal de Loures, Bernardino Soares. Este sub-produto da Guerra Fria e da inoperância das Nações Unidas, governado pela loucura de Kim Jong-un, com formação académica na mui nobre e insuspeita Suíça, é aos olhos do mundo um enorme buraco negro, onde a repressão e o autoritarismo aniquilam a capacidade de pensar, de respirar até, segundo relatos da mesma jornalista. A zona desmilitarizada, (que jeito dariam aos líderes europeus estes 4 km nas fronteiras para fazer depósitos de refugiados), os testes nucleares, os discursos inflamados de antiamericanismo são propalados aos sete ventos por toda a imprensa mundial.
Longe de mim defender a ideologia Juche, que no fundo prevê que todos trabalhem de forma independente para o bem comum. O BEM COMUM, deus meu!!! O que me causou esta indisposição foi mesmo a headline, “Diga ao mundo que somos felizes”. Resisto à tentação, naturalmente naif, de acreditar nesta sénior de sorriso rasgado e rosto iluminado, que nos declara a genuína felicidade de viver subjugada pela dinastia Kim. Assumo que tal expressão foi encenada e cuidadosamente encomendada e posta na boca – sem dentes, digo eu- da mais insuspeita das criaturas.

Neste pressuposto, vejo-me a mim e a tantos outros a escolher esta atitude subserviente de deixar nos outros a capacidade de pensarem por mim, decidirem por mim, de ser marioneta consciente ao arbítrio de mãos sábias. Que cómoda é esta postura de seguidismo cego. Pensem por mim. Digam-me o que devo pensar. Que bom é ser livre num mundinho onde tudo me é imposto… Este “Diga ao mundo que somos felizes” poderia ser proferido por cada um de nós atores passivos neste mundo globalizado e onde as democracias reinam, ou são reinadas. E convenhamos, em maior ou menor grau, todos gostamos que nos sirvam em lautos banquetes, em embalagens de cores berrantes, de mil aromas e paladares, estas verdadeszinhas prontas a consumir. Quase sempre a nossa liberdade tem expressão máxima, na forma mais ou menos apaixonada, mais ou menos gulosa como engolimos a verdade que queremos. Aqui no burgo, ela- a VERDADE- é-nos servida normalmente por bartenders vestido de rosa, de laranja, azul ou em tonalidades de vermelho, ou pelos televisivos “fazedores de opinião”, quase sempre trajando impecáveis uniformes em tons matizados, que nos propõem cocktails cada vez mais elaborados onde misturam um pouco de tudo … Feita a selecção sobre que realidade vamos consumir é só sentar à mesa e degustar a especialidade da casa: Um Mojito de liberalismo económico, um Bloody Mary de estatização da economia, uma Cuba Livre de estado social mínimo, um Gin tónico de privatização da educação ou da saúde, uma Margarita de nacionalização da banca… e é ver-nos cada vez mais bêbados, espírito torpe, belfos mas eloquentes, a prometer porrada a toda a gente que ouse dizer que a sua verdade é melhor que a nossa.

“Diga ao mundo que somos felizes”… Pobres dos norte coreanos, que submissos professam com vénias às estátuas ou fotografias dos líderes desaparecidos, o seu temor à verdade. Que felizes somos nós, os donos do livre arbítrio e da capacidade para nos sublevarmos…


Deixem-me ser moralista… antes da derradeira bezana, antes das nódoas negras que as escaramuças nas traseiras do bar vos trarão, peçam o menu, beberiquem, experimentem, e depois enfrasquem-se à grande…

A.entregou uma pizza #à politicamente irrelevante
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...